Eleições na Rússia

Março 3, 2008

Neste domingo (02/03) os russos foram às urnas e, ao que tudo indica, elegeram Dmitri Medvedev como seu próximo presidente. Com quase 50 % das urnas apuradas, Medvedev, lidera a contagem com quase 70% dos votos válidos. O segundo colocado, o comunista Gennady Zyuganov, conquistou quase 20% dos votos contabilizados. Como já era de se esperar, Zyuganov já se manifestou dizendo que o processo eleitoral foi permeado de irregularidades e que irá recorre à justiça.

Desde a aproximação da convocação das eleições russas um caloroso debate envolveu a política russa. A oposição vem a tempos se manifestando em relação ao retrocesso democrático que vem ocorrendo na Rússia. O regime de Putin tem sido acusado de marginalizar a oposição, principalmente, através de um forte controle dos meios de comunicação. Um forte indicador deste fato foi a generosa parcela cedida a candidatura de Medvedev em detrimento dos demais. A voz da oposição, aparentemente, só consegue ganhar soar livre na Internet. Segundo Kovalev (antigo dissidente soviético), Putin e seus aliados criaram um sistema no qual é “impossível vencê-los em uma eleição”. Outro fator que denota a concentração de poder nas mãos do Kremlin foi a abolição das eleições diretas dos governadores das regiões e repúblicas russas, depois da tragédia de Beslan (atentado terrorista por milicianos chechenos em uma escola em 2004).

Com todo este poder em suas mãos, Putin, conseguiu emplacar o seu candidato, que da mostras claras de ser um “candidato do continuísmo”. Um bom fato para corroborar este argumento é o apontamento de Putin para o, recém criado, poderoso cargo de Primeiro Ministro pelo “quase-presidente” Medvedev.

Em contraste a todo esse retrocesso democrático e acúmulo de poder por parte de Putin e seus aliados é preciso registrar que para implementar tais políticas, Putin contou como respaldo uma enorme popularidade entre os russos. Nestes oito anos à frente do governo russo, Putin conseguiu deixar a economia russa robusta e controlar os conflitos internos.

Os altos investimentos no setor de hidrocarbonetos (praticamente monopolizado pelo governo) e a conjuntura favorável da economia mundial permitiram que a economia russa se tornasse sólida, proporcionando ainda um crescimento de 7% médio. Panorama este que não deve se alterar num futuro próximo, uma vez que o país já conta coma terceira maior reserva do mundo de petróleo. Aliado ao crescimento macroeconômico, também foi possível detectar uma considerável evolução social, principalmente com a diminuição da pobreza.

No que se refere aos conflitos internos, Putin praticamente conseguiu apaziguar a Chêchenia. Atualmente, não há nenhuma ameaça clara a integridade territorial do país. As medidas de concentração de poder político tomadas após a tragédia de Beslan parecem ter sido determinante para o controle de tais conflitos.

Sobre este breve panorama que se realizou as eleições russas. E sobre elas paira uma importante questão: até que ponto vale a pena cercear os direitos democráticos como os de livre expressão e associação para se obter reais avanços econômicos e sociais? O fato de Putin ter tirado a Rússia do “poço” lhe dá credenciais para acumular quase todo o poder político russo e perpetuar a sua influência?

Leonardo Neves

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