Quem ganhou e quem perdeu na tensão entre a Colômbia e Equador?
Março 8, 2008
Antes de tentar analisar os fatos e aferir quem saiu vitorioso da confusão que se instalou no noroeste da América do Sul, é preciso deixar claro que as perdas e ganhos são bastante relativos, afinal elas estão sujeitas a interpretação e juízo de valor. Dito isso, expressarei como vejo que ficou a situação dos principais atores envolvidos em toda esta celeuma.
Colômbia – O episódio do ataque foi um erro para justificar um “acerto”. Definitivamente, violar a soberania de qualquer país é uma ofensa grave, mas na balança de perdas e ganhos, Uribe julgou que valeria a pena se arriscar com Rafael Correa do que deixar Reyes fugir mais uma vez. A Morte de Reyes foi a maior vitória do governo contra as FARC. Mais ainda, infelizmente, foi uma vitória da saída bélica para a resolução da guerra civil colombiana. Passado o episódio. Uribe ganhou pontos por reconhecer a violação da soberania equatoriana e pedir desculpas por isso. Ainda, sua decisão de não mandar tropas para suas fronteiras, mesmo vendo suas fronteiras ficarem apinhadas de soldados da Venezuela e do Equador, foi fundamental para conter uma possível escalada do conflito.
No final das contas, Uribe conseguiu importantes vitórias na sua guerra contra as FARC e por conseqüência na política interna. No plano externo sua imagem ficou um pouco arranhada, mas conseguiu evitar um conflito que não era interessante para ninguém.
Equador – De certa forma saiu vitorioso, afinal conseguiu que a Colômbia se desculpasse pelo ataque e uma prometesse que esse tipo de ação não se repetiria. Entretanto, julgo que Correa deixou transparecer falta de personalidade no inicio da tensão. Em seu primeiro pronunciamento, Correa apenas pediu uma investigação militar do incidente e chegou até a se oferece como mediador entre Uribe e as FARC. Em virtude dos ataques verbais de Chávez e de suas atitudes (fechar a Embaixada Venezuela na Colômbia e mandar tropas pra fronteira), Correa parece não ter tido opção e também encrudesceu o seu tom, dificultando o entendimento entre o seu governo e o colombiano. De qualquer forma, o resultado foi favorável de um modo geral.
Venezuela – Aparentemente, um dos que saiu mal da história. Chávez desde o inicio funcionou como combustível na fogueira. Suas palavras e atitudes foram as grandes responsáveis pelo acirramento dos ânimos. Obteve uma derrota política ao não ver a Venezuela incluída na resolução da OEA. Depois disso, passou a defender uma saída pacífica e inclusive pedir a politização das FARC. Chávez, para muitos, saiu como um grande encrenqueiro do conflito, sem sua influência sobre Correa, a tensão poderia não ter passado de um incidente facilmente manejável.
FARC – sofreu uma seqüência de derrotas. Em uma semana viu dois de seus principais membros serem mortos, Raúl Reyes e Ivan Rios. Perdeu sua aura de invencibilidade ao perder tão importantes líderes. Viu todos seus dois pretensos “aliados”, Equador e Venezuela, negarem veementemente suas ligações com as FARC e ainda viu Chávez pedir a eles que depusessem suas armas (saída pouco provável). Se não bastasse isso tudo, ainda terão de enfrentar Uribe com animo renovado em virtude de suas vitórias recentes.
Nicarágua – Apareceu como um oportunista. Ortega, que rompeu as relações diplomáticas com a Colômbia em solidariedade ao Equador e também em função de uma contenda entre a Nicarágua e a Colômbia envolvendo limites marítimos (um motivo legítimo, mas por si só ainda não tinha motivado nenhuma reação mais dura por parte de Ortega). O interessante é que nem 24hs depois que Oretga havia formalizado o rompimento das relações com a Colômbia, a crise havia sido resolvida, restando ao presidente da Nicarágua voltar atrás de sua decisão.
OEA/Grupo do Rio – Os dois foros regionais foram vitais para solução dos conflitos. Primeiro, na OEA as partes chegaram a um consenso para a elaboração de uma resolução. Em um segundo momento, já no Grupo do Rio, toda a tensão foi resolvida e terminou com vários apertos de mãos. A única preocupação que ainda paira é se o fato de tudo ter sido resolvido na reunião do Grupo do Rio, ter esvaziado a reunião da OEA, fazendo com que sua resolução tenha perdido importância. Julgo que o foro da OEA foi imprescindível para que se pudesse chegar a um acordo na reunião do Grupo do Rio, foi o primeiro passo.
Brasil – Até a reunião da OEA o Brasil teve um papel importante, atingindo o seu ápice na segunda rodada de negociações. Após uma primeira reunião infrutífera, o Embaixador brasileiro Osmar Chohfi teve um papel destacadissímo ao mediar as partes na segunda reunião. Sua habilidade diplomática permitiu que fosse formulada a resolução da OEA, a primeira vitória do esforço multilateral para evitar a escalada do conflito.
Num segundo momento, na reunião do Grupo do Rio, o Brasil perdeu uma enorme oportunidade de participar da solução da controvérsia. Para um país que se pretende líder de uma região, abster-se de participar da solução do conflito constitui-se um grande erro. Para alguns a decisão do não comparecimento de Lula foi na realidade uma estratégia para “blindá-lo” de possíveis problemas, até em função da imprevisibilidade de Chávez, que tem roubado a cena de Lula no protagonismo regional. Enfim, mérito para a diplomacia brasileira representada por Osmar Chohfi e demérito para Lula por ter perdido a oportunidade de ter sido o grande mediador e por conseqüência o protagonista da solução desse episódio.
Leonardo Neves
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