Por que devemos receber Ahmadinejad?

Maio 21, 2009

 

Semana passada um dos eventos que mais acalorou os debates foi vinda do presidente iraniano Ahmadinejad ao Brasil.

Por que nosso presidente deveria receber um homem que nega o Holocausto, prega a destruição de uma outra nação, é acusado de violar os direitos humanos em seu país e de fomentar o terrorismo em sua região. De fato, é razoável que ninguém quisesse que seu presidente estreitasse laços com um mandatário de currículo tão pesado.

Enfim, se ainda me perguntassem se deveríamos recebê-lo, diria que sim. Agora o porquê, já demanda mais algumas linhas para explicar decisão tão polêmica. Antes de qualquer coisa, meu argumento se baseia em que devemos receber todos os mandatários que buscassem o Brasil, seja para estreitar laços ou, principalmente, para mediar alguma situação de conflito. A estratégia de isolar e alienar são retrógradas, e está em baixa até nos EUA, pois ela visivelmente dificulta o diálogo e cria constrangimentos para futura reaproximação e acordos.

Ainda, tal postura seria de certo modo incoerente para a maior parte dos que a defendem, pois quando o presidente americano Bush se recusa a receber diversos presidentes, seja qual fora seu motivo, ele era pesadamente criticado. Agora, espera-se que Lula faça o mesmo.

Voltando ao presidente iraniano, longe de querer justificar seus atos e palavras, dos quais discordo em maior parte. Contudo, para cada uma das acusações feitas a ele, podemos identificar um, ou mais, presidente(s) que sofra(m) acusações semelhantes que não causariam um décimo do rebuliço causado pela vinda do Sr. Ahmadinejad.

O Brasil ao longo dos anos adquiriu um capital político precioso. Hoje somos um dos únicos (senão o único) países de relativo peso político internacional que goza de uma credibilidade invejável em sua postura ante aos demais países. Os pilares da nossa política externa, que remontam o Barão do rio Branco, repousam na não intervenção dos assuntos alheios (soberania), solução de controvérsias por meios pacíficos e no multilateralismo. Essas características nos deram uma aura de neutralidade que nos permite circular pelos corredores da ONU sem nos preocupar em cruzar com quem quer que seja. Tornamos-nos um mediador legítimo para todos. O próprio Ahmadinejad reconheceu esta qualidade entoando que o Brasil é uma potência desinteressada e que, portanto, tem o direito natural de opinar nas grandes questões.

O ponto, no fim, é mais ou menos o seguinte. Podemos contribuir de algum modo. Certamente não será isolando nossos interlocutores. Para atuar como mediadores legítimos e com possibilidades de sucesso, temos que ser aceitos pelos dois lados como um ator dotado de credibilidade e desinteresse. Só assim podemos sentar mesa de negociações e fazer com que todos nos escutem sem reservas. Apenas assim podemos buscar a mudança na postura de determinados líderes sejam árabes, israelences ou qualquer outro. 

     “Não se diz às pessoas o que fazer,

     mas é importante fazer com que elas continuem sentadas à mesma mesa”

     Provérbio Popular Norueguês

Autor: L. P.Neves

Entry Filed under: Diplomacia, Paz e Segurança. Tags: , , , , , .

Leave a Comment

Required

Required, hidden

Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Categorias

Blogroll

Conselhos de Relações Internacionais

Sites sobre Relações Internacionais

R.I. Em Pauta

Internacionalizando

mauricio em Brilho às custas de sangue: Di…
Sonia Regly em Referendo autonomico na B…
ana em Brilho às custas de sangue: Di…
Orlando em Brilho às custas de sangue: Di…
Donizete em Brilho às custas de sangue: Di…

Internacionalistas